O Catolicismo
sob o escrutínio dos valores modernos
O tratamento da sexualidade e o lugar das mulheres
na Igreja são dois dos problemas cruciais
enfrentados pelo Catolicismo contemporâneo
e postos à luz pelos recentes casos de pedofilia
e de estupro de freiras divulgados de forma ampla
pela mídia. Estes podem ser analisados no
contexto mais geral da crise que atravessa o Catolicismo
contemporâneo, como reveladores da profunda
discrepância existente entre o Catolicismo
e os valores do liberalismo e da democracia modernas.
É esse "intransigentismo católico",
segundo a expressão de Émile Poulat,
que impede a Igreja de operar mudanças substantivas
em sua compreensão da capacidade humana de
autonomia de decisão em todos os campos da
vida, alterando os dispositivos reguladores da sexualidade
e da capacidade humana de "fazer outros seres
humanos". Abre-se então uma enorme brecha
entre o que são as expectativas dos/as fiéis
e as proposições romanas.
No Brasil, entre 1999 e 2002,
algumas das manchetes de jornais e revistas nacionais
de grande tiragem, indicam as profundas alterações
sofridas pelo campo religioso brasileiro nos últimos
anos. Todas tratam da Igreja Católica.
A diversidade dessas manchetes e a acentuação
de alguns temas são reveladoras. Eis alguns
exemplos:
"Religião não
é mais herança, mas opção"
(Prandi, in: Folha de São Paulo, 26/12/1999,
p. E4).
"A Nação católica.
O maior país católico do mundo está
ficando cada vez mais evangélico"
( Revista Veja, capa, ano. 35, nº 26, 07/2002).
"Filho de Oxalá, católico
e com fé na reencarnação"
(Beraba, in: Folha de São Paulo, 26/12/2000,
p. E6).
"CEBs defendem a ordenação
de mulheres" ( Roldão Arruda, O Estado
de São Paulo, Cad. "Geral", 15/07/2000,
p.13).
"Bispos e feministas se enfrentam
no Senado". ( Roldão Arruda, O Estado
de São Paulo, Cad. Congresso Nacional,
19/05/2002, p.10)
"Sexualidade e a Igreja Católica.
O reconhecimento do Vaticano de abusos sexuais
de padres contra freiras intensifica o debate
em torno de temas como o celibato clerical e o
papel da mulher na igreja".( Folha de São
Paulo, 01/04/2001, p. A16)
Entre 1999 e julho de 2002, estas
foram algumas das manchetes de jornais e revistas
nacionais de grande tiragem no Brasil, tratando
da Igreja Católica no país. Sua
diversidade e a acentuação de alguns
temas são reveladores das profundas alterações
sofridas pelo campo religioso brasileiro nos últimos
anos. As mudanças indicadas nos títulos
das matérias jornalísticas citadas
acima são reais e significativas. Ainda
que os resultados do último censo realizado
no país 2000 - sejam expressivos
na indicação de queda do número
de fiéis que se declaram católicos/as
e o aumento daqueles/as que se dizem evangélicos/as
e sem religião, o mais importante na leitura
desses indicadores é o que revelam do grau
de secularização da cultura brasileira,
informada por um ethos cristão de cunho
acentuadamente católico.
Desde a colonização,
sabe-se e o mostram inúmeros estudos
históricos e outros, específicos
sobre religião no Brasil que o catolicismo
trazido pelos portugueses forjou uma religião
sincrética, popular, muito
distante do catolicismo europeu, romano. Aqui,
a mistura de elementos religiosos indígenas
e africanos aos rituais, à simbologia e
à doutrina católicas, associada
à escassez de clero, à ausência
de uma catequese e educação religiosa
mais formalizadas, e a outros fatores como a escravidão
dos/as africanos/as, ofereceu condições
para que se desenvolvesse um catolicismo
tropical, ou popular, com características
próprias. Eu sou de candomblé
e sou católico, afirma Agenor Miranda Rocha.
Filho de Oxalá, ele se considera
católico por ter sido batizado, acredita
na reencarnação como os kardecistas,
e admira as religiões orientais .
Considerado, segundo o jornalista que o entrevistou,
o mais importante guardião da tradição
do candomblé , Agenor revela:
Fui batizado. Não sou praticante, mas acredito
nos santos. Se eu não acreditar nas outras
religiões, como vão acreditar na
minha? (BERABA, 1999:6) Maria, negra, moradora
de uma favela de São Paulo, tem uma agenda
religiosa interessante: 2ªf vai à
Missa, na Igreja dos Enforcados, no centro da
cidade; 3ªf pela manhã, atende, em
seu barraco, quem necessita de cura ou de alguma
benzeção, e à tarde, vai
a uma igreja pentecostal. (Folha de São
Paulo, 26.12.1999, p. 4) Ou, como disse, no ar,
uma famosa apresentadora de TV: Sou tão
católica, mas tão católica...
que na outra encarnação, devo ter
sido freira!
Essa dupla ou tríplice
referência religiosa, muitas vezes reveladora
da pouca incidência da catequese católica
sobre o comum dos/as fiéis, pode incomodar
os dirigentes das Igrejas, que, em grande parte
dos casos no entanto faz vistas grossas
para a situação, mas é vivida
sem qualquer problema pelos/as crentes.
Por outro lado, a história
da formação da nação
brasileira e de seu povo confunde-se com a história
da implantação de uma religião
o Catolicismo - que, por 300 anos foi oficial,
a única religião aceita pelo Estado,
descartando a possibilidade de desenvolvimento
de outros credos abertamente. Entretanto, com
o advento da República, em 1889, norteada
por princípios de laicidade, instaura-se
uma realidade nova. O Catolicismo pervade a cultura
e continua sendo a religião de todo
o mundo, com 95% de brasileiros/as declarando-se
católicos nos censos. Cultiva-se
a idéia de que ser brasileiro = ser católico.
Mas, a liberdade do exercício de outros
cultos e religiões coloca a possibilidade
histórica, real, de uma pluralidade religiosa,
antes inexistente. Os terreiros
lugar de culto do Candomblé e da Macumba
deixam de ser o que foram até então:
casos de polícia. A definição
das esferas do Estado e da religião
ainda que mais formal do que efetiva, por bastante
tempo funda o princípio moderno
da liberdade religiosa no país.
Abre-se o campo religioso à concorrência
de diversos credos. De lá para cá,
mais de 100 anos se passaram e a sociedade mudou.
A concorrência passou do campo do possível
ao do real.
Toda essa animada liberdade
de culto e de associação religiosa
que está sendo experimentada em nosso país
, diz Pierucci (1999:7), é a conclusão
lógica banal da separação
Igreja/Estado operada pela primeira República
já em 1890 e inscrita na Constituição
de 1891. Este é o dado básico: a
separação. Este é o fato
inaugural, a pedra de toque da modernidade da
esfera religiosa em nosso país (...) Ainda
há muito o que secularizar, decerto, muito
a desentulhar. Mas também para o Brasil
vale a tese de que a secularização
do Estado é o fato político-cultural
que funda a configuração especificamente
moderna que vai assumindo a nossa pós-colonial
diversidade religiosa a forma do mercado
livre, desregulado, a livre concorrência
entre um número crescente de empresas religiosas
igualmente livres.
É esse contexto de aprofundamento
de um processo secularizador da sociedade brasileira
e de pluralidade de ofertas religiosas que torna
possível pensar nos funcionários
do sagrado como cidadãos, i.e., como homens/mulheres
comuns, com direitos e deveres que lhe são
devidos e cobrados por serem eles/elas, cidadãos,
submetidos ao crivo da legislação
corrente no país. Daí ser plausível
pensar-se na recepção positiva de
uma revista semanal de circulação
nacional, cuja matéria de capa estampa
a manchete: Pedofilia na Igreja. Ou
admitir-se a condenação judicial
de um sacerdote católico acusado de estupro
por mulheres da paróquia. Coisa impensável,
alguns anos atrás.
As sociedades ocidentais contemporâneas
mudaram substantivamente sua relação
com as religiões. Não mais questão
de herança, mas opção pessoal
(PRANDI, 1999:4), a escolha religiosa é
condicionada e motivada por inúmeros fatores
de busca de respostas existenciais a soluções
para necessidades mais urgentes da vida cotidiana.
Abre-se então, um espaço para uma
avaliação pessoal da religião
e de seus agentes, desmistificando-os, em parte.
Assim, entendo que as condições
de possibilidade para que os recentes escândalos
dos padres pedófilos e dos estupros de
religiosas, se tornassem manchetes em jornais
e TVs em grande parte dos países do nosso
mundo globalizado são resultado do processo
secularizador moderno nas sociedades e nas consciências.
A quebra da hegemonia católica no Ocidente
que esse processo propiciou permitiu colocar o
Catolicismo e seus agentes ao lado de outras religiões,
como uma entre tantas às quais se pode
recorrer. Parece que se esgotou a forma católica
de monopólio de gestão do capital
simbólico pelo clero e seus mecanismos
da legitimação.
Esse inexorável trabalho
do espírito moderno sobre sociedades
antes marcadas pelo espírito cristão,
tornam a Igreja Católica vulnerável
à crítica, especialmente, no campo
dos direitos das mulheres, do tratamento da sexualidade
e do controle da reprodução humana.
Uma acusação legal contra padres
católicos ou um relatório sobre
estupro de religiosas saído do próprio
Vaticano e tornados públicos transformam-se
então, em dispositivos analisadores
através dos quais é possível
identificar lógicas sociais, culturais
e simbólicas cuja significação
supera muito o próprio acontecimento em
suas implicações imediatas.
(HERVIEU-LÉGER, 1999:291) É essa
lógica que interessa apreender aqui.
Como no caso Gaillot, agudamente
analisado por Danièle Hervieu-Léger
(1999), a sucessão de denúncias
de abuso sexual praticado por sacerdotes católicos,
contra freiras e contra meninos, constitui, para
além da crise imediata, um indicador significativo
de desestabilização do que Poulat
denomina o sistema católico. Revela a enorme
discrepância existente entre as proposições
da instituição e as expectativas
de seus/suas fiéis, fazendo voltar ao debate
o problema das relações da Igreja
com a Modernidade.
A modernidade de uma sociedade
avalia-se, essencialmente, pela posição
que atribui, em todos os registros da atividade
humana, à autonomia do sujeito, isto é,
à capacidade que cada indivíduo
tem para determinar, em consciência, as
orientações que entende dar à
sua própria vida. Ao mesmo tempo, implica
que os indivíduos sujeitos tenham condições
de definir, debatendo com outros indivíduos
sujeitos (entre cidadãos) as
orientações da sociedade na qual
vivem. Em tal sociedade, que é necessariamente
uma sociedade diferenciada e pluralista, nenhuma
instituição poderá pretender
impor ao conjunto dos indivíduos e do corpo
social um código de sentido global. Em
tal sociedade, o sentido da ação,
individual e coletiva, não é recebido
de cima, mas construído individual e coletivamente.
Tal é, em todo caso, o ethos de nossa modernidade
democrática. (HERVIEU-LÉGER,
1999:299)
Na análise de Léger,
o fiel católico contemporâneo é
devedor de duas características
da cultura moderna do indivíduo
rejeição dos discursos de autoridade,
valorização das testemunhas do sentido
. (1999:302) Há uma exigência
de sentido que se acompanha da recusa de normas
impostas: (...) um número crescente
de católicos (que) já não
suportam serem tratados como destinatários
passivos de um discurso de autoridade que se imporia
a eles na presumível qualidade de verdade
possuída, de maneira exclusiva, pelos titulares
legítimos do poder religioso. (Hervieu-Léger,
1999:304)
A crise que se instala a partir
da publicização dos escândalos
que atingem o clero católico põe
a nu a questão central da necessidade de
modernização da organização
eclesial em seu conjunto: estrutura, simbologia,
discurso e normas. Como toda instituição
social, as Igrejas devem adaptar-se aos novos
contextos em que vivem seus fiéis, a fim
de mantê-los como adeptos. Tradicionalmente,
a Igreja Católica tem enfrentado esse problema,
afirmando sua exterioridade em relação
à Modernidade e atribuindo-se um papel
profético em relação à
mesma. É o que Hervieu-Léger chama
estratégia de compensação
profética : se a Igreja não
é ouvida, não é porque seu
discurso seja inadaptado, mas sim porque trata-se
de um discurso profético que, por definição,
está na contramão das tendências
e expectativas da opinião pública.
Um sofisma expressa claramente esse pensamento:
o Evangelho é inaceitável
para o espírito do mundo, a
opinião majoritária rejeita o discurso
da Igreja, portanto, o discurso da Igreja está
conforme ao Evangelho . (Hervieu-Léger,
1999: 319-320) Assim, a Igreja tenta requalificar-se
institucionalmente, assumindo a desqualificação
cultural a que a opinião pública
a submete, como uma forma de qualificação
evangélica negativa, o que comporta
riscos para a credibilidade social da instituição.
Inúmeras manifestações públicas
que seguiram o aparecimento das notícias
de abuso sexual por parte do clero católico
exprimiam a incompreensão das regras disciplinares
impostas ao mesmo e suas consequências negativas,
não apenas para os próprios padres,
mas também, e às vezes principalmente,
para as mulheres e, agora, mais claramente, para
meninos e outros homens. O recurso a explicações
de caráter religioso e disciplinar não
mais convence de sua legitimidade, dado que essas
regras não são respeitadas. Elas
parecem agora, pelo efeito amplificador da mídia,
mais do que nunca, irrecebíveis,
não só pela opinião pública
em geral, mas pelo próprio público
da Igreja.
Tal situação põe
em questão a plausibilidade da manutenção
do celibato obrigatório para os clérigos
e o estatuto de controle da sexualidade, regulada
por normas estritas de comportamento. Ainda que
uma certa espetacularização dos
casos pela mídia amplifique suas repercussões,
não há como fugir à evidência
de que esses casos permitem aflorar a força
de um movimento protestatário latente entre
católicos/as e que vem manifestando-se
nos últimos tempos, de maneira episódica.
A legitimidade e conseqüente aceitação
pelos/as fiéis da separação
do clero em relação ao comum
dos fiéis e ao mundo,
condição de seu exercício,
é questionada. Essa condição
de separado que o candidatava a ser
um testemunha privilegiado de sentido não
mais tem sentido para o/a fiel, que
o descobre um igual, ou ainda, alguém
com menos condições de dar
testemunho e oferecer sentido.
Por outro lado, a justificativa do celibato pelo
serviço à igreja e ao seu
povo revela-se uma ficção,
uma vez que seu exercício não é
real. Não que essa descoberta seja nova.
A diferença é que o não cumprimento
do celibato obrigatório pelo clero católico,
contado à boca pequena e com
certo grau de condescendência, tornou-se
alvo de debate público e de crítica.
Assim, a exposição
da Igreja à mídia, com a publicização
dos casos de pedofilia e de estupro, aparecem
como reveladores da extraordinária complexidade
das questões enfrentadas pela Igreja atualmente
e permitem avançar um certo diagnóstico
sobre a situação do Catolicismo.
LUNEAU (1999:380) indica uma relativa concordância
entre diferentes analistas: Sem falar de
desmoronamento' (C. Imbert) é, com
toda a evidência, o fim de uma certa
cultura cristã do Ocidente (M. Bellet),
o fim de um certo espírito cristão
(É. Poulat), uma decomposição
geral dos dogmas estruturados, das hierarquias
constituídas (J.-M. Domenach). O
que está em questão, constata M.
De Certeau, não é Deus, mas a Igreja.
Émile Poulat, em obra recente, assim se
expressa:
A Igreja tem certamente
motivos para dizer como se concebe a si mesma
e estimar que está comprometida com sua
doutrina, mas não pode ignorar que está
sozinha em um mundo que se separou dela para deixar
de ser obrigado a pensar como ela, segundo sua
perspectiva e categorias. O mundo atual que pensa
deixou de ser o mundo que a Igreja pensava [...]
Esse mundo secularizado só existe separado
da religião, ininteligível sem sua
estreita concomitância com o despertar e
progresso da descrença. (In Luneau,
1999:382-383)
Concluindo
A análise dos últimos fatos
tornados públicos por um trabalho intenso
da mídia, especialmente nos EEUU, nos conduzem
a retomar a hipótese de que a crise atual
da Igreja Católica assumindo que
ela seja real resulta das relações
complicadas do Catolicismo com princípios
centrais da Modernidade e do aprofundamento do
ethos democrático das sociedades ocidentais
contemporâneas, e o trabalho concomitante
do processo de secularização das
mesmas. Há hoje, uma opinião católica
aculturada aos valores e práticas democráticas
muito distante do pensamento e das proposições
da autoridade romana.
A religião não está
morta nas sociedades contemporâneas, porém
não é mais possível
aceitar a religião cristã em sua
forma (destacado no original), que é a
da heteronomia, baseada num magistério
ex cathedra, inadmissível desde que a modernidade
fundou a liberdade da razão , diz
. Rouanet, ao defender a continuidade dos conteúdos'
religiosos. (2002:9)
O inadmissível, no caso
em questão, parece ser a imposição
de uma norma o celibato sobre a
liberdade de opção. E em sociedades
pluralistas em que uma religião vale outra
religião, há um enorme à
vontade para criticar a instituição
religiosa e colocar seus agentes no banco dos
réus.
Maria José Rosado Nunes,
Pontifícia Universidade Católica
de São Paulo, Coordenadora de Católicas
pelo Direito de Decidir / Brasil
--------------------------------------------------------------------------------------------------------------
Referências bibliográficas
BERABA, Marcelo, Filho
de Oxalá, Católico, e com fé
na reencarnação, in: Folha
de São Paulo, Caderno Especial Fé
no Ano 2000, 26 de dezembro de 1999 (p.7).
BLANCARTE, Roberto, Émile
Poulat et l Amerique latine, in: ZUBER,
Valentine, ( Émile Poulat), Un Objet de
Scince, le catholicisme: Reflexions autour de
l'oeuvre d'Émile Poulat , Sorbonne, 1999.
GAARDER, Jostein, Vita Brevis.
La carta de Floria Emilia aAurélio Agustín,
4º ed., Madrid, Ediçoes Siruela, 1997.
HERVIEU-LÉGER, Daniéle,
O Bispo, a Igreja e a Modernidade
, in: LUNEAU, René & MICHAEL, Patrick
(Orgs.), Nem Todos os Caminhos Levam a Roma ,
Petrópolis,RJ, Vozes, 1999.
LUNEAU, René, A
Igreja católica no futuro, in: LUNEAU,
René & MICHAEL, Patrick (Orgs.), Nem
Todos os Caminhos Levam a Roma , Petrópolis,RJ,
Vozes, 1999.
MBUI BEYA, M. Bernadette,
Violence inthe Name fo Culture and Religion,
Comunicação apresentada na Pan-African
Conference on Religion and Culture, Ghana
, 29 de julho a 5 de agosto de 2001 (Texto veiculado
pela internet).
NEGRÃO, Lísias Nogueira,
Entre a Cruz e a Encruzilhada: Formação
do campo umbandista em São Paulo , São
Paulo, Editora da Universidade de São Paulo,
1996.
PIERUCCI, Antônio Flávio,A
Encruzilhada da Fé, in: Folha de
São Paulo, 19/05/2002, Caderno MAIS, pp.
4-7)
POULAT, Émile, La Solution
Laïque: et ses problèmes , Paris,
Berg International Editeurs, 1997.
PRANDI, Reginaldo, Religião
não é mais herança, mas opção,
in: Folha de São Paulo, Caderno Especial
Fé Ano 2000, 26/12/1999 (p.
4).
ROUANET, Sérgio, A
Volta de Deus , in: Folha de São
Paulo, Caderno MAIS, 19 de maio de 2002 (pp.8-11).
SARAMAGO, José, Evangelho
Segundo Jesus Cristo , São Paulo, Companhia
das Letras, 1991
TRANVOUEZ, Yvon, Catholiques D'Abord:
Approches du mouvement catholique en France (XIX-XX
siècle) , Paris, Les Éditions Ouvrières,
1988.
Dados dos Censos Demográficos
indicam o decréscimo do número de
brasileiros/as que se declaram católicos:
De 95,2%, em 1940, caem para 73,8%, no censo de
2000. (Pierucci, 2002:6)
Comentário anotado de reprodução
oral de memória, sem fidelidade literal,
feito para a autora do texto por uma aluna, no
correr de um curso.
Lísias Negrão fala
sobre esse Catolicismo culturalmente imposto
como parâmetro cultural: consiste
no pressuposto religioso ao qual não se
pode fugir. Nossa realidade está dele tão
impregnada que é apenas sob o risco de
ser julgado anti-religioso, no mínimo sectário,
que se lhe pode contrapor-se.
(...) há 200 anos
a grande novidade na história humana, não
é, como se diz impropriamente, a
liberdade de consciência (...) mas
a liberdade pública de consciência
para todos, sem exceção (Poulat
, 1997:60) Este texto, como todos os outros cuja
edição é em língua
estrangeira são apresentados em português,
em tradução da autora.
A repressão à Umbanda
continua após a 1889 e até se intensifica,
segundo estudiosos dessa religião. (Negrão,
1996) Também para outras religiões,
a República, com a Constituição
de 1891, é um marco que instaura a liberdade
de culto, mas a hegemonia católica, seu
vínculo com os governos republicanos continua
e o pluralismo religioso não se efetiva
rapidamente.
Podem-se acrescentar ainda, no
âmbito internacional, as reações
ao relatório sobre abusos de freiras por
padres católicos, colocando-os no campo
da violação dos direitos humanos
e da violência doméstica. (cf. MBUY
BEYA, M. Bernadette, 2001)
Jostein Gaarder, romance já
citado, coloca na boca da companheira de Agostinho,
Floria Emília, a mesma idéia:
La vida es breve y sabemos demasiado poco. Pero
si fuiste tú quien se ocupó de que
me llegaran tus confesiones para que las leyera
aquí en Cartago, la respuesta es no: no
recibiré el bautismo, honorable obispo.
No temo a Dios. Tengo la sensación de que
ya vivo com Él. Acaso no fue Él
quien me creó? Tampoco es el nazareno quien
me detiene, tal vez Él fue realmente un
hombre de Dios. Además, no fue Él
justo com las mujeres? Son los teólogos
los que me inspiran temor. Que el Dios del Nazareno
os perdone por toda la ternura y amor que rechazáis.
(Vita Brevis, 1997, 4ªed.: 127)
|