Sábado, 11 de Octubre de 2008
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Declaração da Red Latino Americana de Católicas Pelo Direito de Decidir

FRENTE A DIVULGAÇÃO DA CARTA AOS BISPOS DA IGREJA CATÓLICA
SOBRE A COLABORAÇÃO DO HOMEM E DA MULHER NA IGREJA E NO MUNDO

Com indignação e tristeza

É com indignação e tristeza que recebemos a carta divulgada pela Congregação para a Doutrina da Fé, para os bispos da Igreja católica "sobre a colaboração do homem e da mulher na Igreja", publicada em 31/07/04.

Indignação porque, enquanto todas as entidades e personalidades mundiais comprometidas com a construção de um mundo mais solidário, humano e democrático, estão considerando que é fundamental ter em conta as contribuições surgidas dos movimentos e das mulheres feministas do mundo inteiro, a Igreja Católica, instituição religiosa, cuja presença majoritária de fieis é composta por mulheres, mostra sua cara misógina e a falta de vontade de acolher as boas contribuições que vêm destas, divulgando uma carta que recrimina sem argumentos sérios as propostas surgidas do feminismo.

É triste e vergonhoso ler uma carta com imprecisões, ignorância e falta de clareza sobre as proposições do movimento feminista, quando ela emana de uma instituição eclesial que em alguns momentos da história tem dado uma contribuição valiosa e sábia para a humanidade.
Na carta a igreja revela sua falta de humildade quando se auto proclama "perita em humanidade", atitude que reflete a crença em que ela é a dona da verdade e tem a última palavra sobre estes assuntos. " ... Aquele que no vosso meio for o menor, este será grande." ( Lc 9, 48). O que se percebe é o desejo profundo de uma igreja masculina que se sente no direito de decidir e escolher o que as mulheres querem ou devem fazer de suas vidas, sobretudo quando propõe no documento, um modelo de mulher que tem como missão "sacrifício, sofrimento, passividade e doação para os outros". É exatamente esse modelo que tem trazido conseqüências negativas para as mulheres cristãs, como demonstram os estudos e pesquisas feministas, incluindo neles as teologias feministas.

Não podemos ignorar que o texto bíblico do Gênesis utilizado pelos autores da carta, é fruto de uma redação datada, histórica e sujeita a interpretação, neste caso, interpretação masculina. Na tradição bíblica cristã não existe uma única interpretação, existem interpretações diversas dos textos bíblicos. Portanto, interpretações usadas na carta, sobre os valores atribuídos ao sexo feminino, como a solidariedade, a acolhida, a receptividade, são unilaterais, uma vez que tais valores são próprios de toda a humanidade. O que reivindica o feminismo é que os homens também contribuam ao mundo com estes valores.

Se a atitude da igreja fosse a de "ESCUTAR OS SINAIS DOS TEMPOS", como o principio evangélico sugere, ela acolheria as contribuições que o feminismo tem trazido não somente para as mulheres, como também para os homens, porque se uma parte da humanidade é negada, excluída, maltratada, toda a humanidade estará sendo afetada. Por isso, o que em última instância as mulheres buscam e a igreja não tem vontade de entender, é criar novas relações entre os seres humanos, onde ninguém seja excluído/a, nem as diferenças sejam motivo de desigualdades. Não se trata de "luta entre os sexos" , mas de que se faça justiça para com as mulheres. Os homens não são "inimigos a vencer", mas sim são convidados a recriar juntos o mundo em que vivemos.

A igreja revela não querer ouvir os sinais dos tempos, quando desconhece as contribuições que o feminismo tem trazido também para as religiões. Porque ao mesmo tempo em que o feminismo desvenda as responsabilidades das religiões na situação de subordinação das mulheres, também mostra as contribuições positivas que as religiões têm trazido para a vida das mulheres. Uma teologia que incorpore as experiências das mulheres, como estão propondo as teólogas feministas não é muito bem vinda para os homens do Vaticano. As mulheres de Igreja querem muito mais que continuar reproduzindo um discurso que perpetue e justifique religiosamente a subordinação das mulheres. Querem como construtoras de sua própria fé contribuir para a libertação das mulheres e isso, a carta não tem em conta.

Se a igreja fosse mais humilde, escutaria "AS VOZES DOS TEMPOS", de mulheres católicas que no mundo inteiro querem ver reconhecidos os direitos que têm como batizadas e confirmadas dentro da Igreja. Estes direitos elas conquistaram no mundo inteiro, quando com seu trabalho diário mantêm vivas muitas das comunidades cristãs.

Se a igreja tivesse vontade de ler " OS SINAIS DOS TEMPOS" entenderia que a diversidade familiar existe através da história humana e bíblica, como quando encontramos nos evangelhos um Jesus que rompe as tradições e escolhe outro modelo familiar, ao indicar os discípulos como uma nova família (Marcos 3:31). Ou quando escolhe como família Lázaro, Marta e Maria, um irmão solteiro vivendo com duas irmãs solteiras. Ao contrário do que a igreja prega, a estrutura familiar, não é estabelecida pela natureza, mas reflete a cultura e economia na qual está inserida. Entenderia que a relação esponsal entre Deus e a Igreja não é o único modelo de amor, nem a única maneira válida de amor. Na própria Bíblia encontramos outros modelos do amor de Deus: no Cântico dos Cânticos, na parábola do Bom Pastor, no amor de Maria Madalena por Jesus, no amor de Jesus por seu discípulo amado, etc...

Se a igreja tivesse vontade e quisesse escutar o "CLAMOR DOS TEMPOS" abriria seu coração e abraçaria o que os feminismos estão anunciando: Um novo céu, uma nova terra, onde homens e mulheres de todas as raças, de todas as cores, de todas as orientações sexuais, de todas as gerações, tenham igualdade de condições. E assim se cumpriria o proclamado por Maria no Magnificat: " ... dispersou os homens de coração orgulhoso, depôs poderosos de seus tronos, e a humildes exaltou....(Lc 1, 51-52).

As mulheres ainda continuamos esperando uma palavra de denúncia e solidariedade da igreja sobre os séculos de discriminação e exclusão que sofremos, tanto na sociedade como na igreja;
Ainda continuamos esperando uma voz de compromisso e denúncia da Igreja, pelos altos índices de violência sofrida pelas mulheres,

Ainda continuamos esperando uma palavra pública de solidariedade e acolhida as muitas religiosas que no mundo inteiro sofreram abuso sexual por parte de padres, como noticiou o National Catholic Report, em 16 de março de 2001;

Ainda continuamos esperando uma atitude de compromisso e justiça para com as mulheres, crianças, adolescentes que no mundo inteiro têm sofrido abuso sexual por parte de padres.
Ainda continuamos esperando, que leiam OS SINAIS DOS TEMPOS !!!!


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