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| Às
dificuldades de natureza metodológica soma-se um
segundo desafio: nós, as autoras, temos estado
imersas no cenário que analisamos. Este cenário,
por sua vez corresponde a uma experiência coletiva,
plural. As reflexões aqui desenvolvidas são
inevitavelmente posicionadas", ou seja, os
percursos que privilegiamos tendem a se sobrepor às
nossas trajetórias pessoais, conceituais e políticas. |
O movimento de saúde
e direitos reprodutivos no Brasil: revisitando percursos
Maria Betânia Ávila e Sonia Corrêa
Discurso no Percurso
Tanto quanto a formação histórica
de uma classe trabalhadora não é o efeito de relações
de produção, a formação de um movimento
não é o resultado de uma relação
causal, miséria - demanda ou opressão reivindicação
ou ainda inversamente: expansão de serviços públicos
- necessidades: mas a formulação de demandas,
reivindicações ou necessidades coletivas passam
pela construção de uma idéia de direitos,
pelo reconhecimento de uma coletividade. É deste processo
que a análise da participação das mulheres
nos movimentos pode ser reveladora. (Elizabeth de Souza
Lobo 1987)
Numa perspectiva histórica, stricto sensu, a trajetória
do movimento social que legitimou, na esfera pública
brasileira, as noções de saúde da mulher
ou se quisermos saúde e direitos reprodutivos é
muito recente [1]. Embora
tenha apenas duas décadas, esta trajetória desvela
uma enorme riqueza em termos de transformações
micro-sociais e macropolíticas que ainda não foi
examinada, extensa e profundamente, como já ocorreu com
processos de mesma natureza que tem alterado a cena política
brasileira contemporânea.
A trajetória do movimento por saúde
e direitos reprodutivos foi, sem dúvida, analisada
por algumas autoras e autores ( Barroso 1987, Barroso e Corrêa
1990, Corrêa 1994, Pitanguy 1994, Martine 1996, Ávila
1993). Entretanto, permanece inexplorado e disperso um grande
volume de informações não compiladas,
assim como memórias pessoais que não foram recolhidas
e sistematizadas. As reflexões que se seguem devem
ser lidas, portanto, como um novo esforço de aproximação
acerca de objeto de análise cuja extensão e
complexidade extrapola de muito o investimento que foi possível
realizar para produção deste texto.
Às dificuldades de natureza
metodológica soma-se um segundo desafio: nós,
as autoras, temos estado imersas no cenário que analisamos.
Este cenário, por sua vez corresponde a uma experiência
coletiva, plural. As reflexões aqui desenvolvidas são
inevitavelmente posicionadas", ou seja, os percursos
que privilegiamos tendem a se sobrepor às nossas trajetórias
pessoais, conceituais e políticas. O lugar a partir
do qual falamos permite, eventualmente, captar elementos e
momentos distintivos que cristalizam as motivações,
embates, direções do movimento. Contudo, também
pode ofuscar a distinção entre empatia e julgamento.
Fatos, relatos e interrogações relevantes os
quais seriam, possivelmente sublinhados por outros/outras
analistas nos escapam. Na medida em que eles permanecem vivos
e inexplorados à margem deste texto, fica a expectativa
de que este exercício possa estimular outros esforços
que permitam examinar a partir de outros pontos de vista este
trajeto, fértil e singular, da construção
da cidadania no Brasil do fim do século 20.
Premissas do Movimento pela Saúde
e Direitos Reprodutivos no Brasil
A idéia de natureza como paradigma legitimador
servirá aqui para sancionar que o lugar da mulher continue
sendo a natureza, com as conotações que tinha
no primeiro sentido (no Antigo Regime) como aquilo que deve
ser dominado, controlado, domesticado. A mulher é agora
natureza por "natureza"; é a própria
natureza, a ordem natural das coisas, que a define como parte
da natureza. Assim para Rousseau (o filosofo do "Contrato
Social"), por natureza o homem pertence ao mundo exterior
e a mulher ao interior - encaixando assim na dicotomia natureza
-cultura a dicotomia interior-exterior - que adquire especial
relevância na sociedade burguesa capitalista. (Amorós,
1985).
A proposição de cidadania para
as mulheres emerge no ocidente como teorização
e expressão pública no final do século
18. O marco histórico fundamental é a Revolução
Francesa que traz as luzes para os ideais modernos de cidadania.
No entanto, a cidadania que se institui com a revolução
burguesa tem apenas os homens proprietários e europeus
(brancos) como destinatários. Na epígrafe desta
seção Célia Amorós analisa a construção
ideológica acerca da relação sociedade
natureza, a partir da qual seriam definidos novos esquemas
categoriais para fundamentar a ordem social moderna e burguesa.
Mas o projeto da modernidade, não pode se esquivar
de um conflito entre o fundamento jurídico da igualdade
e da cidadania e a remissão das mulheres para um lugar
de diferença desigual determinada pela natureza. Com
base nas premissas iluministas, durante os últimos
dois séculos as mulheres tem reivindicado a igualdade.
Mas, "o que reivindicavam elas? O direito ao trabalho,
à instrução, ao divórcio e, sobretudo,
mao exercício de seus direitos cívicos, como
cidadãs plenamente reconhecidas. Sem jamais recolocar
em questão os deveres próprios de seu sexo,
essas mulheres desejavam a todo custo ser igualadas aos homens,
e participar, como eles, da soberania popular. (Badinter,
1991).
O século 19 e primeira metade do século
20 assistiram, com fluxos e refluxos, a luta do movimento
de mulheres por igualdade com ênfase nos direitos à
educação e ao voto. A conquista desses direitos
em muitos países trouxe uma nova condição
de inserção social para mulheres. Entretanto
até a década de 60 deste século persistiu,
no âmago da demanda das mulheres por igualdade, a perspectiva
de serem, formalmente, iguais aos homens. Estava ausente desta
agenda a crítica da desigualdade como um componente
das relações sociais baseadas na dominação
de sexo que hierarquiza as relações de gênero
enquanto relações de poder e constitui uma das
bases fundamentais da ordem liberal. Esta ordem seria, porém,
desafiada pela teorização feminista dos anos
60 e 70 que elabora uma proposição de ruptura
com a ordem social existente, visando - como diz Bourdieu
(1996) - romper com a pretensa naturalidade da opressão
feminina, ou seja desmontar esquemas categoriais tradicionais
e heterônomos.
A preocupação das feministas
com os temas da reprodução também remonta
ao século 19. Contudo no contexto de radicalidade política
e cultural que envolveu o feminismo contemporâneo estas
questões seriam retomadas com vigor e propiciariam
o surgimento de grupos informais, instituições
e as mais diversas iniciativas voltadas para a questão
da saúde das mulheres . "Nosso corpo nos pertence",
palavra de ordem que percorreu o mundo na década de
setenta, capturou a imaginação das mulheres
nos mais diversos continentes, motivou micro rebeliões
e demandas públicas como a legalização
do aborto.
A idéia de reapropriação
do próprio corpo contida na afirmação
"nosso corpo nos pertence" se ancora no reconhecimento
de que o corpo de cada uma/um é o lugar primeiro da
existência humana, lugar a partir do qual ganham sentido
as experiências individuais no cotidiano e nos processos
coletivos da história. A afirmação se
vincula tanto a dimensões materiais quanto a dimensões
simbólicas da existência. Diz respeito à
existência corporal (biológica), à a existência
social e política, mas também ao "ser no
mundo" enquanto pessoa. Contempla tanto os aspectos associados
a individuação das mulheres, quanto sua relações
na vida coletiva. A existência ganha sentido na relação
com o outro, mas para isso é necessário uma
apropriação de si para ter uma existência
própria e a partir daí ganhar e dar sentido
em relação com o outro.
Desfazer o lugar do corpo ( da anatomia)
como destino, desconstruir a heteronomia em que estiveram
( e continuam) mergulhados os corpos femininos são
os fundamentos de uma concepção renovada de
cidadania a qual incorpora as vivências da sexualidade
e da reprodução e por este caminho abre campo
para que seja superado o despossuimento de si
experimentado pelas mulheres nesta duas esferas. Tal perspectiva
exigia, inevitavelmente, a elaboração de novos
direitos sem os quais a cidadania plena das mulheres não
seria realizável. Pensar cidadania como prerrogativa
que se aplica também às esferas da reprodução
e da sexualidade, exige a desnaturalização dessas
dois domínios, exige a desconstrução
do paradigma que biologiza o feminino no social, demarcando
seu lugar (no privado) e limitando sua ação
na esfera pública. Esta radicalidade continua sendo
necessária pois - como já foi lembrado anteriormente
- o projeto da modernidade continha ( e contém) contradições
de fundo no que se refere ao lugar social e político
das mulheres. Entre estas contradições está
a de que - embora sendo formalmente iguais perante a lei -
o corpo feminino que reproduz continuou sendo um corpo apropriado
e subordinado as definições de ordem privada
e ordem pública.
Para romper esta lógica complexa de
apropriação o feminismo contemporâneo
firmou uma premissa inegociável de autonomia, ou seja
a de que as mulheres podem e devem ter um projeto, uma existência
com significado próprio. Entre os anos 70 e 90 este
projeto se construiria em muitos terrenos, mas sobretudo a
partir da experiências das mulheres e suas necessidades
nos campos da sexualidade e da reprodução. Isto
porque na vida cotidiana as condições materiais
assim com a representações sociais se demonstram
desfavoráveis a um projeto cujo sentido filosófico
está voltado para o prazer, a partilha de responsabilidades
e o direito de escolha. Este entendimento é o que inspira
a elaboração e aprimoramento das noções
de direitos reprodutivos e direitos sexuais.
A liberdade de decisão nos assuntos
da reprodução e da sexualidade foi um ponto
de partida de onde se desdobrariam proposições
as mais diversas: novos marcos legais, nova produção
de saber sobre o corpo feminino, instalação
de novos serviços de assistência a saúde
a partir de parâmetros criados pelas próprias
mulheres. No Brasil, e no mundo, a emergência política
e legitimação das questões relativas
à saúde feminina é um componente crucial
de uma agenda que combina a valorização das
experiências corporais das mulheres com estratégias
que visam transformar discursos e práticas sociais
que fazem destas experiências corporais um locus de
subordinação. Assim nos esforços teóricos
e na ação desenvolvida pelas feministas ganha
posição de destaque a demanda pelo livre exercício
da sexualidade, que tem na demanda por aborto legal e o acesso
contracepção não coercitiva seus fios
condutores.
Esta pauta seria incorporada pelos grupos
de mulheres que surgem no Brasil ao longo dos anos 80, resultando
em uma tendência à especialização
temática em torno da saúde. Saúde e direitos
reprodutivos como temas privilegiados pelo movimento de mulheres
assumiriam um perfil público e funcionariam como alavancas
para pressionar por mudanças legislativas e políticas
públicas. No espectro das reflexões e reivindicações
que dizem respeito à saúde da mulher, desde
um primeiro momento, esteve presente o interesse e o questionamento
acerca do saber e do poder médico. Isto porque todas
a concepções de saúde ou de assistência
a saúde das mulheres com que as feministas se defrontaram
estavam ancoradas num conceito de natureza feminina, entendida
como frágil e descontrolada devendo ser dirigida exclusivamente
a reprodução social como lugar inferior e herdeiro
da condição biológica. O saber médico
era tanto um saber disciplinador como também um saber
que justificava a hierarquia entre os sexos.
Assim, o tema da saúde se sobressai
no cenário do feminismo em um primeiro momento como
um lugar de desvendamento das cadeias que aprisionavam as
mulheres no lugar da procriação com a conseqüente
redução da sua dimensão humana. Por isso
Labra (1989) citando Enrenreich e English (1976) ao analisar
o conteúdo do debate emergente sobre saúde das
mulheres no Brasil escreveria que: "Para as mulheres,
a saúde é um elemento potencial que transcende
a classe e a raça. O sistema médico, mais do
que qualquer outra instituição da sociedade,
nos reduz a uma categoria biológica, nos despoja de
nossas ocupações, estilos de vida e individualidades".
A preocupação original do feminismo
contemporâneo foram as próprias mulheres (nós
mesmas) enquanto sujeitos da experiência e agentes de
mudança. A partir das vivências individuais e
sociais chegaríamos, pari e passu aos nosso temas centrais.
Não houve uma definição a priori sobre
a importância de se levantar reivindicações
com relação à assistência médica,
com base numa premissa teórica como por exemplo :
"A saúde é um território fundamental
para exercício da cidadania feminina". Muito
ao contrário, foi a reflexão sobre nossas vidas
e de outras mulheres que nos colocou diante dos limites e
das possibilidades de mudança que se apresentam na
relação entre o sistema de saúde e a
população feminina. O interesse das feministas
pelas questões relativas à saúde tem
hoje mais de vinte anos. E, parece-nos muito significativo
que estejamos realizando este balanço quando estão
definitivamente legitimadas tanto no plano global quanto entre
nós as noções de saúde reprodutiva,
direitos reprodutivos e direitos sexuais.
Hoje, sem dúvida, esta agenda precisa
ser ampliada, sobretudo para incorporar a questões
de saúde ocupacional das mulheres e aspectos relativos
à saúde mental e ao envelhecimento. Entretanto
é preciso reconhecer que enquanto implementação
efetiva de leis e de políticas ela não foi plenamente
realizada, nem mesmo em suas dimensões mais convecionais
como a prevenção do câncer cervical ou
assistência ao pré-natal e aparto. Da mesma forma,
no plano teórico, se faz necessário expandir
nossas analises com base numa perspectiva mais ampla e complexa
de gênero e saúde. Entretanto isto não
significa, ao nosso ver, abdicar das premissas básicas
de saúde da mulher e direitos reprodutivos. Entre outras
razões porque ela nos lembra que os sistemas de sexo/gênero
articulados a lógicas de dominação de
classe e raça - "operam de forma mais aguda
na etapa reprodutiva da vida das mulheres" (Barbieri
1993).
O Trajeto no Tempo
O movimento de mulheres por saúde no Brasil construiu
um caminho muito próprio em termos de tendência
política feminista. Na sua origem ele é de inspiração
sexista, na medida em que identifica as relações
que se dão na esfera da sexualidade como bases fundamentais
da opressão das mulheres. Quando revisitamos o cenário
dos anos 70 veremos que, então, o movimento aliava
elementos do "sexismo" a concepções
marxistas da luta de classe, ecoando a atmosfera mais ampla
do debate feminista internacional (Millet Firestone). Entretanto,
se o feminismo brasileiro sempre guardou vínculos com
o movimento internacional também foi um ator crucial
no processo de luta pela democracia em um país de profunda
desigualdade social. O feminismo no Brasil pautou sua ação,
desde sempre, numa perspectiva de luta pela "cidadania
real" na expressão de Touraine (1984).
Neste sentido, suas premissas originais seriam
reequacionadas de modo a articular a teoria e ação
das feministas ao processo mais amplo da democratização.
O caminho encontrado foi o de fundamentos de autonomia das
mulheres e de justiça social, buscando fazer com que
nesta conjugação o sentido da democracia se
estendesse para as dimensões da vida cotidiana. Barsted
(1992) ilustra bem o sentido estratégico desta opção:
"...os temas da reprodução
e da sexualidade não inauguraram a primeira pauta do
feminismo contemporâneo brasileiro. A conjuntura política
do regime militar, a aliança com a Igreja e com os
partidos de esquerda eram fundamentais na luta contra o arbítrio
e, em função disto, as questões referentes
à sexualidade e reprodução tiveram que
ficar estrategicamente fora do emergente discurso feminista.
A inclusão desse temário no final do anos 70
tem vários significados: superação do
tabu, ampliação dos espaços democráticos
dentro da oposição ao regime e ao mesmo tempo,
descompressão", política por parte
do regime autoritário. O debate sobre o aborto, a sexualidade,
que coloca o corpo como tema da política, se instala
nos anos 80. As feministas trazem uma grande contribuição
para expandir a agenda da luta política por democracia.
A chegada de mulheres brasileiras do exterior, com a promulgação
da Anistia Política em 1979, representa uma profunda
contribuição aos termos desse debate no Brasil
em função da experiência de militância
feminista em outros países, o que já apontava
para a internacionalização do debate no Brasil.
Os temas básicos que vão configurar a agenda
dos direitos reprodutivos no país, tem um peso importante
da experiência vivida lá fora".
Na primeira metade da década de 80,
essa trama de temas e novas formas de organização
comporia a ampla mobilização pelo fim do regime
militar, cristalizando-se na luta por eleições
diretas. Um governo civil eleito pelo povo foi a grande aspiração
do momento. A chegada do que se denominou a Nova República
trouxe o governo civil, mas não trouxe as eleições
diretas e ficou registrada na experiência dos movimentos
sociais como "transição negociada".
A consolidação da democracia passaria a ser
a meta política e o pilar para a construção
de uma nova sociedade onde o direito de representar, escolher
e exprimir opiniões eram fundamentais.
A partir dos meados do anos 80, o campo da
saúde das mulheres ou saúde reprodutiva receberia
grande atenção e investimento por parte do movimento
feminista. Esta densidade estava associada às premissas
originais do movimento mas seria, por outro lado, uma decorrência
da nova conjuntura política da democratização.
Neste novo contexto, a criação do Conselho Nacional
dos Direitos da Mulher (CNDM), da Comissão Nacional
de Estudos dos Direitos da Reprodução Humana
no Ministério da Saúde e, mais especialmente,
a formulação do PAISM - Programa de Assistência
Integral ã Saúde da Mulher - são referências
fundamentais, pois expressam a institucionalização
da agenda feminista pelo Estado.
A partir daí a associação
entre feminismo e saúde e direitos reprodutivos se
tornaria tão estreita que muitas vezes, na percepção
da sociedade, são percebidos como campos intercambiáveis.
Mas é interessante pensar como o faz Barroso ( 1987)
que a legitimação de uma noção
de direitos relacionados a reprodução imprimiu,
no caso brasileiro, uma marca feminista nos debates da democratização
e, sobretudo, nos processo que se desenrolam, desde os anos
80, na arena de formulação de políticas
públicas:
"Se a história tem mostrado
a ingenuidade de separar os direitos reprodutivos dos demais
direitos, a experiência recente das feministas brasileiras
mostra que o foco nos direitos reprodutivos pode atuar como
catalisador da ampliação da consciência
crítica".
Quando, em 1980, vários grupos elegem
a saúde como tema nucleador de sua ação,
revertem a tendência do feminismo como prática
política das camadas médias da população
para expandir-se às camadas de baixa renda, onde a
saúde tem sido, historicamente, uma reivindicação
prioritária. A luta por saúde ganha expressão
em todos os setores organizados da sociedade, é um
componente central das demandas dos movimentos populares.
Neste cenário o movimento sanitarista avançaria
no sentido de formular uma proposta em que se combinavam a
reivindicação por saúde como direito
a um novo desenho de política pública cristalizado,
anos mais tarde, no Sistema Único de Saúde -SUS.
Na trajetória dos grupos feministas
autônomos, por sua vez, a idéia de um novo modelo
de assistência à saúde da mulher gereminaria
também no início do anos 80. Neste período
são realizados encontros e seminários regionais
e nacionais nos quais esta questão é discutida
e onde são elaboradas as propostas conjuntas contendo
os novos conceitos desta assistência que tem como fundamento
ideológico os princípios de integralidade e
autonomia da mulher. São exemplos desses momentos o
Encontro Feminista do Nordeste realizado em 1983 em Natal
e o I Encontro Nacional de Saúde, acontecido em Itapecerica
da Serra em 1984. Deste encontro resultou um documento intitulado
"Carta de Itapecerica", cujo conteúdo apresentava
uma forte crítica a realidade do país seguido
de propostas para a saúde das mulheres. Para introduzir
as propostas foi criado um item chamado "Nosso conceito
de saúde". Os documentos que resultavam desses
encontros eram divulgados e serviam de base para a ação
dos grupos.
Mas seria com o advento da Nova República
e dentro das transformações gerais que ocorreram
na relação da sociedade civil com o Governo
Federal que o movimento de mulheres iniciaria, de fato, uma
longa caminhada através das instituições.
Formulado em 1983, pelo Ministério da Saúde,
o PAISM contaria com feministas em sua coordenação
até 1988 e também com a colaboração
técnica de grupos autônomos em atividades como
capacitação e produção de material
didático. Entre 1985 e 1989 a agenda de saúde
da mulher, tal como definida pelo PAISM, também seria
objeto de investimento e atenção por parte do
CNDM. O CNDM teve um papel fundamental como articulador dos
eventos nacionais, como repassador de informações
para todos os grupos do país e como um órgão
de defesa dos direitos da saúde feminina e da reprodução;
atuou com veemência junto aos MInistérios da
Saúde e da Previdência; garantiu também,
a publicação e disseminaçôa de
cartilhas de apoio para a realização dos trabalhos
educativos em saúde da mulher.
Neste etapa, dois momentos são particularmente
relevantes: Assembléia Nacional Constituinte (1986-1988)
e a Primeira Conferência de Saúde da Mulher.
Na elaboração da nova Constituição,
por efeito da pressão do movimento, com apoio do CNDM,
foi aprovado o artigo do planejamento familiar e impediu-se
inclusão da premissa de direito à vida
desde a concepção no preâmbulo Constitucional,
agenda mobilizada pela Igreja Católica e pela bancada
evangélica. Significativamente, estas duas bases legais
do texto constitucional legais continuam balizando o debate
e as iniciativas políticas nos anos 90. A lei do Planejamento
Familiar foi finalmente aprovada em 1997 e encontra-se em
processo de implementação. Da mesma forma, a
evolução do debate sobre o aborto - incluindo-se
aí a implementação de serviços
para realizar o procedimento nos dois casos previsto pelo
código - teria tomado caminhos radicalmente diversos
caso os setores anti-aborcionistas tivessem vencido a batalha
da Constituinte.
A Primeira Conferência Nacional de
Saúde e Direitos da Mulher, ocorreu em outubro de 1986
como um desdobramento da VIII Conferência Nacional de
Saúde, realizada em março do mesmo ano (com
patrocínio do CNDM, Ministério da Saúde
e Ministério da Previdência e Ação
Social). O evento merece destaque especial pela sua amplitude,
pela qualidade e diversidade da representação
política das mulheres, e pelas repercussões
que teve. Em todos os estados da União foram realizadas
conferências preparatórias, onde eram escolhidas
as delegadas e definidas prioridades. O movimento de mulheres
teve uma ampla participação neste evento, tanto
em termos de representação política quanto
na sua concepção e organização.
Embora, patrocinada pelos Ministérios do Governo Federal,
a Conferência se converteu em fórum de debates
onde se levantaram críticas profundas e arraigadas
com relação à falta de ação
e compromisso do governo com a questão da saúde,
e mais especialmente a saúde das mulheres.
Os grupos de mulheres que se estruturam em
torno do tema saúde, surgem numa segunda fase do novo
feminismo brasileiro. Por um lado a democratização
e consciência dos problemas sociais traria a necessidade
de romper com os círculos fechados dos grupos de consciência
e criar conexões com as mulheres dos extratos populares.
Ao mesmo tempo, apesar da heterogeneidade das idéias
e diversidade das atividades desenvolvidas pelos grupos autônomos,
configura-se a tendência para especialização
dos temas de trabalho. Entretanto, essa especialização
temática, longe de implicar num estreitamento dos horizontes
permaneceria fiel à herança deixada pela etapa
inicial do feminismo, quando todos os aspectos da condição
da mulher eram integrados de forma abrangente e integrada.
Na verdade, é com a vista voltada para o entendimento
da situação sócio-política-afetiva
da mulher, que a saúde é enfocada pois, como
afirma Arruda (1987), a saúde é uma das peças
chave no caminho da (re)construção da identidade
feminina.
Neste sentido, a colaboração
entre os grupos feministas e o Programa de Assistência
Integral a Saúde da Mulher (PAISM), nos meados da década
de 80, representou uma experiência inédita e
fundamental no sentido de traduzir para a política
pública os conhecimentos e práticas gerados
no espaço feminista. O movimento pela implantação
do PAISM canalizou uma parcela importante da ação
dos grupos autônomos que estavam envolvidos com a questão,
não só no que diz respeito às ações
de mobilização, organização e
representação política, mas também
àquelas relativas à produção e
difusão de informação e conhecimento.
Tal processo teve significados diferenciados
para as mulheres de classe média e mulheres do meio
popular envolvidas com o movimento. Para os segmentos médios
o movimento e seus resultado teve como significado a construção
da cidadania feminina com base em princípios gerados
a partir da concepções, estudos, vivências
e reflexões das próprias mulheres. Para as mulheres
do meio popular, a luta pela saúde com espaço
para construção da cidadania tinha um sentido
mais urgente de transformação da qualidade de
suas vidas, pois sendo elas usuárias do sistema de
saúde pública eram as principias vítimas
de sua ineficiência e distorção.
Os grupos de classe média experimentaram
o dia a dia da pressão política, da interlocução,
dos conflitos com os técnicos do Ministério
da Saúde e da participação nas instâncias
governamentais federais onde ocorriam os debates de ordem
técnica e política. As mulheres do meio popular
participaram sobretudo da pressão e representação
políticas locais, e dos grandes eventos nacionais -
a grande maioria deles realizados em Brasília. Pode
- se dizer que para as mulheres do meio popular este movimento
estava ligado ao movimento geral por melhoria de condições
de vida, e para os grupos de classe média a perspectiva
tinha um conteúdo mais ideológico no sentido
de qualificar o processo de democratização política
e social com um conteúdo feminista. A articulação
entre eles, contudo, se fazia em prol da viabilização
do PAISM entendido por todas como um direito social necessário
e inadiável. É muito significativo registrar,
por exemplo, que nos grandes momentos de encontro e mobilização
feministas de classe e organizações de mulheres
do meio popular raramente estiveram articulados numa lógica
do tipo "vanguarda x massa", mas sim numa perspectiva
de colaboração e parceria.
Premissas em Movimento
Partidos Políticos: A Instável Aliança
O movimento de saúde, a partir de seu projeto comprometido
com a justiça social como elemento chave para construção
da autonomia e da cidadania das mulheres, pressupunha que
os partidos do setor considerado progressista - a "esquerda"
com significado ampliado - constituiriam o campo partidário
prioritário de suas relações. De fato
constituíram e seguem sendo aqueles de maior compromisso
na defesa dos direitos reprodutivos. No entanto essa relação
de aliança não tem sido linear ou
automática.
Quando da emergência do movimento feminista,
ainda sob o regime militar, havia uma clara distinção
entre esquerda e direita e o movimento feminista, no geral,
se situou historicamente no campo da esquerda. Porém
se caracterizarmos o movimento de mulheres por saúde
reprodutiva como um exemplo do que Touraine (1984) denomina
"ação social" verificamos que é
difícil transitar da narração fragmentada
sobre episódios da vida social para uma análise
sobre relação entre um movimento e partidos.
Ao refletir sobre os acontecimentos da relação
feminismo - partidos políticos, no Brasil, muitos episódios
sugerem que esta relação nunca consubstanciou
um compromisso que poderíamos chamar "histórico".
Ou seja, um compromisso com a história que se desenrola
a partir da ação de um movimento e passa a integrar
projeto de sociedade tal como formulado por um partido político,
ou pelo menos que passe a integrar, sistematicamente, os compromissos
de campanha dos partidos. Até hoje, a saúde
reprodutiva e os direitos reprodutivos e sexuais não
constituem prioridades partidárias. Seu significado
enquanto agenda política não leva os partidos
a repensar suas propostas de organização social,
tampouco constitui tema. Na verdade o , o debate em torno
dos conteúdos desta agenda provoca, no interior dos
partidos muito mais um efeito de desagregação
do que uma dinâmica de unidade partidária. Além
disto é importante salientar que, no Brasil a relação
movimentos de mulheres - partidos tem sido desde sempre marcada
pela interferência da Igreja Católica, assim
como pela crítica do feminismo aos pressupostos da
organização partidária. Esta crítica
se dá também com relação aos partidos
de esquerda, pois o movimento recusar a hierarquia rígida
de organização, identifica limites na democracia
representativa e tem apreço pela democracia direta.
A ação do movimento - que protagoniza
essas demandas - visa movimentar a sociedade através
da construção de novas práticas sociais
e da difusão de idéias que tragam conquistas
que alterem de fato a vida cotidiana. Já do lado dos
partidos trata-se, sobretudo de agregar partidários,
permanentes ou eleitorais. O movimento, por sua vez, não
tem comando que dirija suas opções, não
estimula a filiação a partidos, nem organiza
sua ação em torno da disputa do poder no sentido
clássico. Muito embora a cultura política no
interior do movimento favoreça as opções
à "esquerda" - porque suas integrantes se
sentem parte dessa tradição e tem compromisso
com a justiça social - não define opções
eleitorais prioritárias, não recruta militantes
para campanhas políticas nem orienta, partidariamente,
as mulheres nos momentos eleitorais.
É difícil classificar
e analisar essa "relação" entre formações
políticas de natureza tão diferenciada - como
são os partidos e movimento feminista - pois os referencias
que normalmente se aplicam às relações
políticas se restringem a considerar como legítimos
os processos e regras da democracia representativa que como
se sabe está centrada na lógica da organização
partidária. Como falar da instabilidade
desta relação sem correr o risco de evacuar
o significado político da ação por saúde
reprodutiva. Isto porque na lógica dominante das ciências
sociais e da ciência política são os partidos
que dão significado ao que é político
na sociedade.
No entanto, se ousarmos pensar de outra maneira
constataremos que a agenda da saúde reprodutiva e dos
direitos reprodutivos e sexuais, na verdade, revela que a
lógica política dos partidos é fragmentada,
eleitoreira e, com freqüência determinada por projetos
individuais e concepções privatistas. Este entendimento,
porém , não elimina a necessidade dos movimentos
sociais - e, no caso, do movimento de mulheres por saúde
reprodutiva - de buscar meios para visibilizar sua ação
sócio-política e reforçar canais mais
eficazes de expressão e participação
na esfera pública [2]
Entretanto qualquer estratégia neste
campo exige com que reconheçamos que os aliados
na maioria dos casos, não defendem as proposições
feministas integralmente e, com freqüência, as
abandonam no meio do caminho, seja porque tem outras prioridades,
seja porque descobrem que "a radicalidade" da causa
se choca com seus interesses eleitorais. Além disto
a sustentação de uma agenda de direitos reprodutivos
e sexuais está sempre vulnerável face à
interferência da igreja católica, em qualquer
instância que sejam colocados como pauta de negociação
política. O confronto com a Igreja neste campo é
sempre considerado pelos partidos como uma ameaça a
suas bases de sustentação e popularidade.
A experiência na luta pela legalização
do aborto e pelos direitos sexuais desde a década de
80 já nos ensinou que ao buscar aliados para nossas
pautas radicais devemos sempre contar com uma
reconfiguração dos atores entre os campos progressista
e conservador. Em geral, são as posições
individuais de deputados, senadores e executivos do Estado
que prevalecem, rompendo com as determinações
coletivas das instâncias partidárias onde estão
inseridos. Assim nem sempre é possível contar
com a totalidade da bancada de um partido progressista para
apoiar a legalização, mesmo quando esta é
uma definição programática. Entretanto
é possível contar com apoio de representantes
de partidos conservadores onde se concentram setores radicalmente
contrários a qualquer modificação da
lei. No interior desta trama complexa a relação
do movimento com os partidos termina por ser definida a partir
de lógicas subjetivas ou da pessoalidade. A defesa
de plataformas específicas é negociada através
de indivíduos considerados "aliados/as".
Caberia refletir o quanto estes meandros terminam por implicar
um razoável grau de "despolitização",
pois a disputa de poder se converte em mera questão
de apoio.
Médicos e Controlistas: Do Antagonismo
ao Diálogo
Ao final dos anos 70, ao projetar uma agenda que tinha como
objetivo instaurar novas percepções e práticas
tanto nos serviços de saúde e quanto no plano
das decisões reprodutivas da mulheres, o movimento
encontrou, de imediato, um Estado autoritário, sem
compromisso com as necessidades básicas da maioria
da população. Em seguida se deparou com dois
outros mecanismos discursivos e institucionais poderosos:
a hegemonia da perspectiva biomédica na construção
de representações sobre o corpo feminino e o
lugar social da mulher; os agentes institucionais que implementavam
no país programas de planejamento familiar desde a
década de 60.
Esta não seria a primeira nem a última
vez, na história moderna, em que as feministas enfrentariam
a ordem médica e os planejadores familiares. No contexto
desta relação conflitiva e sinuosa, que vem
se desenrolando ao longo do século 20 (Boston Collective
1980; Donzelot 1980; Hartmann 1987, Gordon 1976; SOS Corpo,
1991) a experiência brasileira representou um capítulo
singular. Num contexto caracterizado por desigualdades sociais
agudas, machismo renitente e condições políticas
autoritárias, não foi tarefa simples isolar
os muitos fatores que comprometiam a qualidade dos serviços
de saúde e a autodeterminação das mulheres.
Num primeiro momento, as feministas interpretaram
o que viam como mero efeito da convergência entre patriarcado,
Estado autoritário e imperalismo das políticas
de controle populacional. Cabe lembrar que, ao final dos anos
70, materializavam-se, no mundo inteiro, as orientações
adotadas pela Conferência de População
de Bucareste de 1974 (Corrêa 1994) , sendo os programas
não governamentais de planejamento familiar amplamente,
denunciados por setores de esquerda, no Brasil e no plano
internacional, crítica que foi de imediato absorvida
pelo movimento [3].
Entretanto, a imersão do movimento na experiência
vivida pelas mulheres, sua aproximação gradativa
com a realidade dos serviços produziu inflexões
nesta perspectiva original.
A primeira "descoberta" das feministas
foi a de que, mesmo sob pressão de fatores desfavoráveis
( as externalidades extensamente mencionadas por economistas
e demógrafos ) as mulheres pobres queriam regular sua
fecundidade e buscavam meios para tal (Barroso 1987 , Corrêa
1983, Ávila e Barbosa 1984). Este achado fundamentou
a argumentação feminista de que as experiências
e motivações das mulheres deveriam ser tomadas
como um elemento central nas análises transição
demográfica e da ampliação da prevalência
contraceptiva no país.
Por outro lado, à luz desta evidência,
as distorções dos programas não governamentais
de planejamento familiar - então denominados entidades
privadas - assumiram outra feição. Estávamos
diante de uma cena mais complexa do que a co e rção
pura e simples. As mulheres queriam meios de regulação
da fecundidade, mas o Estado não os oferecia. Nos programas
não governamentais o a utoritarismo das operações,
a falta de informação adequada e a má
qua lidade dos serviços oferecidos fazia com que as
mulheres vivessem experiência trágicas ao usar
os métodos oferecidos, terminando por desacreditar
anticoncepção reversível e se orientando
gradativamente para a opção preferencial pela
esterilização. Nos início dos anos 80
já estava tomando forma no país um mercado
de demanda e oferta de laqueadura tubária ( Corrêa,
1983, Ávila e Barbosa 1984).
Num s egundo passo , as feministas distinguir
am entre a posição do Estado, com relação
ao crescimento populacional e as premissas de controle demográfico
que inspiravam as instituições não governamentais
de planejamento familiar. O malthusianismo internacional havia,
sem dúvida, influenciado áreas do aparato estatal
d urante a ditadura: o II Plano Nacional de Desenvolvimento
(1975) incluíra uma meta de redução do
crescimento populacional [4]
, a BE MFAM tinha estabelecido convênios com Estados
e municípios, especialmente no Nordeste; personalidades
políticas defendiam, publicamente, o controle populacional.
No final dos anos 70, a formulação do Programa
de Prevenção de Gravidez de Alto Risco foi interpretada
- pela esquerda, feministas e defensores do planejamento familiar
[5] - como um avanço da posição
malthusiana no interior do Estado.
Entretanto continuava m, de fato, muito atuante
s no aparato estatal premissas natalista s: a idéia
de que uma nação poderosa é necessariamente
populosa era, por vezes, vocalizada por altas patentes miltares.
Sobretudo, a orientação da política de
saúde voltada pa ra as mulheres no anos 70
- o Programa Materno-Infantil - se não era abertamente
natalista, confinava a mulheres ao lugar de reprodutoras.
No início da década de 80, as feministas perceberam
que duas dimensões intimamente associadas na experiência
reprodutiva das mulheres - a maternidade e a anticoncepção
- eram oferecidas por sistemas institucionais isolados ( às
vezes incompatíveis). Num momento em que prevaleciam
a nálises sobre a natureza implícita das políticas
de controle demográfico do regime militar, a crítica
feminista sublinh ou, sobretudo, a omissão do Estado
com relação a demanda das mulheres por contracepção
( a chamada não política ) , que
d eixava o campo aberto para as operações das
entidades privadas .
Foi no contexto deste debate que se deu a
aproximação entre as feministas e o mundo da
demografia, desdobrando-se, em anos subsequentes num diálogo
fértil e fundamental em termos da qualificação
conceitual e técnica do movimento para enfrentar o
debate com os controlistas [6].
Sobretudo, nesta nova etapa, as feministas identificaram no
discurso e na prática médica um óbice
crucial a ser enfrentado, quer na política de saúde
de corte maternalista implementada pelo Estado, qu er no âmbito
dos prog r amas paralelos de planejamento familiar . O abuso
e desrespeito às mulheres era flagrante tanto nas clínicas
e programas comunitários de planejamento familiar,
quanto na assistência ao pré-natal e parto e
na atenção ginecológica oferecida pela
pública de saúde (Ávila e Barbosa 1984,
Ávila e Leocádio 1988).
Foi com base nestes esforços de pesquisa
e reflexão que se firmou no movimento a premissa que
o acesso à anticoncepção era um direito
básico de cidadania das mulheres e deveria ser oferecida
na rede pública de saúde como um componente
de uma política mais ampla de saúde reprodutiva
que incluiria: assistência de qualidade ao pré-natal,
parto e puerpério; prevenção de DSTs
e do câncer cervical e de mama; atenção
às adolescentes e á menopausa, ou seja o PAISM.
Entretanto, o embate com a lógica
biomédica dos serviços de saúde se desdobraria
no tempo. Nos anos subsequentes, sob impacto do pensamento
de Foucault e de autoras feministas, a movimento refinaria
sua crítica ao poder médico, questionando em
profundidade: a representação fragmentada do
corpo feminino e dominante no discurso biomédico; a
subsunção das mulheres ao seu lugar
na função reprodutiva reiterada por programas
e serviços; o privilégio das técnicas
curativas em detrimento das ações de prevenção
e promoção; a biologização da
reprodução e sexualidade que, com freqüência,
faz convergir a posição dos médicos com
a norma religiosa, como no que se refere ao aborto.
Os estudos realizados pelas feministas também
revelaram viéses de classe e raça na relação
entre profissionais médicos e usuárias. E, no
âmbito das análises sobre a oferta e acesso ao
procedimento de esterilização feminina, o movimento
tornou visível a lógica de mercado que orientava
a prática de alguns setores médicos, assim como
seus vínculos com o clientelismo político (CPI
da Esterilização Nacional e PE ) Entre os anos
80 e 90, a explicitação destas críticas
em discussões acadêmicas, programas de treinamento
e no debate público colocou as feministas, freqüentemente,
em confronto aberto com os médicos. A partir dos meados
da década de 80, estas tensões se condensariam
ao redor de dois temas: as tecnologias contraceptivas e a
crescente incidência da esterilização.
Esta condensação se deve a que neste dois terrenos
se dá, de fato, uma franca convergência entre
poder médico, racionalidade instrumental (da perspectiva
malthusiana), busca de soluções técnicas
para problemas sociais complexos, a lógica do lucro
e limitação da autodeterminação
das mulheres (1986 (Corrêa e Barroso 1995; Corrêa,
1998; Dacach e Israel 1993).
No âmbito dos conflitos e debates sobre
novas tecnologias, o episódio mais significativo diz
respeito ao cancelamento da pesquisa do NORPLANT em 1986..
Entre 1991 e 1994, por sua vez, cristalizaram-se tensões
- externas e internas ao movimento - no que se refere ao tema
da esterilização. Este momento foi pontuado
por eventos significativos: a CPI da Esterilização,
a realização da ECO 92, a formulação
do projeto de regulamentação do planejamento
familiar, as preparações para a Conferência
do Cairo onde a questão teve grande visibilidade. Neste
percurso, registra-se o crescente protagonismo do movimento
de mulheres negras, cuja análise acentua a dimensão
racial do fenômeno, caraterizando a vertiginosa incidência
da esterilização como uma expressão de
genocídio racial.
Entretanto dizer das tensões é
também falar de uma trajetória instável
de aproximação e diálogo entre as feministas,
ginecologistas, obstetras e pesquisadores da área de
reprodução humana. Ainda em 1984, realizou-se
uma mesa sobre saúde da mulher no Congresso Brasileiro
de Ginecologia e Obstetrícia (São Paulo). Um
primeiro diálogo formal entre as feministas e os pesquisadores
em contracepção e novas tecnologias reprodutivas
ocorreu em 1987 - imediatamente após o cancelamento
da pesquisa do NORPLANT. Este evento coincidiu no tempo com
iniciativas de mesma natureza nos Estados Unidos e antecipa,
em alguns anos, o estabelecimento de diálogos similares,
seja no plano internacional (IWHC 1992- Reunião de
Genebra 1991), seja em outros países do Sul. Uma mesma
composição caracterizaria os seminários
sobre Mortalidade Materna (1990) e Aborto (1991). Estas iniciativas
constituíram uma estratégia deliberada de aproximação
entre os dois campos [7].
A construção de pontes entre
o feminismo e o poder médico não teria se dado,
caso outros elementos não tivessem contribuído
para tanto. Entre eles, desempenharam um papel crucial as
inúmeras mulheres médicas atuantes ou vinculadas
a grupos e organizações feministas desde o início
da década de 80. Estas médicas ao longo dos
anos tem ocupado posições relevantes no sistema
de saúde; antes do SUS, no INAMPS e particularmente
nas estruturas relacionadas à implementação
do PAISM. Também tem tido posições de
destaque nas associações profissionais médicas
e no parlamento, infundindo neste espaços a perspectiva
do movimento de mulheres [8]
. Um fenômeno similar pode ser identificado no caso
das profissionais de enfermagem e assistentes sociais com
impacto vital em nível dos serviços e de suas
organizações profissionais e políticas
[9]
O diálogo e parceria entre o movimento
de mulheres e os sanitaristas, embora tensos em alguns momentos,
também contribuiria para abrir espaços de interlocução
com a corporação médica. Na medida em
que sanitaristas e feministas se reforçaram, mutuamente,
na crítica com relação aos limites e
distorções da perspectiva estritamente biomédica
e da medicina curativa o impacto desta crítica se ampliou
e estimulou reações por parte da ordem
médica. No mesmo contexto, os programas de sensibilização
e treinamento para saúde da mulher, implementados a
partir de 1986 como estratégia de implementação
do PAISM, também, constituíram uma oportunidade
privilegiada de exposição dos médicos
às perspectivas feministas. Muito embora os treinamentos
tenham sido, com freqüência, palco de controvérsias
agudas, possibilitaram a infusão de novas idéias
e premissas através da rede de serviços. Também
possibilitaram o recrutamento de novas militantes
entre médicas e enfermeiras, assim como a construção
de parcerias com médicos homens (por mais que isto
pudesse parecer impossível num primeiro momento).
Outro terreno que favoreceu a quebra da distância
entre a perspectiva feminista e o poder médico foram
as instituições acadêmicas. Neste caso
tem grande relevância: a incorporação
de premissas e inserção de docentes feministas
nas escolas médicas e centros de treinamento especializados;
programas conjuntos entre ONGs e faculdades de medicina; os
cursos de curta duração em saúde reprodutiva
e sexualidade [10] .
Mais recentemente, a implantação de serviços
de abortamento nos casos permitidos por lei tem significado
um espaço privilegiado de sinergia entre a perspectiva
feminista da saúde e dos direitos reprodutivos e a
expertise dos profissionais médicos.
No tocante à relação
entre o movimento e os planejadores familiares, porém,
a dinâmica de rechaço e aproximação
foi sempre mais áspera e turbulenta. Seus contornos
atuais, devem ser analisados à luz da articulação
entre as dinâmicas nacionais e processos que se desenrolavam,
simultaneamente, no plano global. Isto porque, desde o final
da década de 80, expandiram-se e legitimaram-se, no
plano internacional as críticas com relação
às políticas controle populacional, processo
que culminaria com a Conferência do Cairo em 1994, cujas
recomendações significativamente legitimam no
plano global as premissas que havia sido definidas quando
da formulação do PAISM dez anos antes: políticas
e programas amplos de saúde reprodutiva em que o planejamento
familiar é apenas um componente e respeito com relação
aos direitos individuais das mulheres.
Estes trajetos de aproximação
não significam que a trincheira política e ideológica
entre feministas, gineco-obstetras e profissionais envolvidos
com planejamento familiar tenha sido inteiramente superada.
Contudo, no momento atual, o cenário é radicalmente
diverso daquele que marcou os anos 80. Desde então
a colaboração entre o movimento e profissionais
médicos se desenvolveu em campos decididamente estratégicos:
os serviços de aborto nos caso previstos por lei; a
prevenção ao HIV-AIDS entre as mulheres; programas
de introdução de tecnologias contraceptivas,
a redução da morbi-mortalidade materna e feminina;
a prevenção do câncer cervical. Mais recentemente,
tal colaboração tem se convertido em parceria
política efetiva e permanente. São exemplos
o trabalho conjunto em nível dos mecanismos de controle
social do SUS [11]
, comitês de mortalidade materna e, mais especialmente
as campanhas Pela Vida das Mulheres (aprovação
do projeto de lei 20 de 1991 relativo a implementação
dos serviços de aborto nos casos previstos por lei
pelo SUS) e Parto Normal é Parto Natural
[12].
Normas religiosas: o embate sem fim
Quando nos anos 80 o debate estava polarizado entre
controle e natalismo a Igreja era uma voz importante contra
o controle o que condizia com sua "opção
pelos pobres , e critica as pressões internacionais
e sobretudo americanos para dimuinir o crescimento populacional
no Brasil. Mas isto vinha junto com uma recusa mais radical
em aceitar planejamento familiar em função da
"igreja no Brasil ser bastante dependente do Vaticano,
evitou por muito tempo divulgar qualquer declaração
favorável à anticoncepção, mesmo
quando clérigos europeus o faziam. Esses fatores produziram
uma curiosa combinação de grande tolerância
às práticas anticoncepcionais no nível
individual e, até recentemente uma rejeição
absoluta a qualquer tipo de programa oficial de planejamento
familiar. (Barroso e Bruschini, 1989).
A Igreja Católica tem historicamente
interferido nos assuntos ligados à reprodução
e à sexualidade. Tendo como princípio a relação
sexual para a procriação, esta instituição
não admite comportamento diferenciado da sua norma,
mesmo para aquelas pessoas que não comungam da sua
doutrina e/ou não querem se submeter a sua lei, o que
constitui inclusive uma prerrogativa fundamental da liberdade
de credo garantida na Constituição Brasileira.
Sua ação não se restringe apenas a pregação
pastoral para manutenção da hegemonia no campo
religioso, mas também tem como uma de suas metas o
controle das políticas sociais na área da saúde
reprodutiva e da legislação sobre os direitos
reprodutivos e direitos sexuais. Isto faz com que o diálogo
com os representantes dos poderes Executivo e Legislativo
esteja sempre sob a interferência da ação
organizada da Igreja Católica, muitas vezes apoiada
por outras igrejas do campo evangélico.
Tal situação tem trazido impasses
na implementação de programas sociais e aprovação
de projetos de lei fundamentais para cidadania das mulheres.
São exemplos disso o próprio PAISM que na década
de oitenta teve sua declaração como programa
oficial retardada em função do embate que essa
Igreja travou para retirar o DIU (dispositivo intra-uterino)
como um dos métodos contraceptivos a ser oferecido
no serviço público. A polêmica se resolveu
pela inclusão do método, mas o setor religioso
ganhou um amplo espaço na divulgação
e orientação dos métodos contraceptivos
denominados de "naturais". Além disso, conseguiu
embargar episodicamente e, em alguns casos definitivamente,
muitos dos materiais que foram elaborados pelos grupos feministas
para o Ministério da Saúde. Episódios
mais recentes dizem respeito ao projetos de lei que regulamentam
o Planejamento Familiar e o atendimento aos casos de aborto
previstos em lei, (gravidez resultante de estupro e risco
de vida da gestante). Estas duas iniciativas legislativas
tem sido definidas pelo movimento feminista como instrumentos
fundamentais para democratizar e implantar serviços
de saúde reprodutiva na rede pública de saúde,
favorecendo, sobretudo, as mulheres das camadas mais pobres
da sociedade.
Essas circunstâncias produzem uma relação
paradoxal envolvendo a Igreja Católica e as mulheres
brasileiras. Nos trabalhos comunitários que desenvolve
no campo da saúde apoia-se na ação das
mulheres como agentes centrais para efetivação
de seus trabalhos pastorais, com base no trabalho voluntário,
capacidade de servir ao próximo, etc. Sua ação
ganha reconhecimento público e apresenta resultados
considerados positivos do ponto de vista de alivio da pobreza.
Por outro lado, essa forma de atuação contribui
fortemente para manter serviços sociais a baixo custo
em uma perspectiva que se enquadra bem nos moldes dos programas
de ajuste estrutural.
As mulheres, e sobretudo as mulheres pobres
são os agentes básicos para cumprir sua missão
social da Igreja. Enquanto membros da estrutura oficial da
Igreja, as mulheres constituem a parcela mais pobre e desprovida
de poder. No trabalho comunitário são as religiosas
e as laicas vinculadas a estruturas pastorais que são
encarregadas de manter a ação cotidiana das
mulheres. A Igreja não apenas dá apoio a projetos
e programas que visam melhorar a qualidade de saúde
das próprias mulheres pobres como também se
manifesta, de forma apropriada e veemente, contra a falta
de ação governamental no campo das políticas
sociais. Porém, luta ferozmente pelo embargo de qualquer
proposta que seja voltada para auto-determinação
sexual e reprodutiva das pessoas.
As mulheres abortam em condições
miseráveis, esterilizam-se em condições
inadequadas e sofrem abusos sexuais cotidianamente, morrem
de AIDS e câncer de colo do útero e vivem os
partos dramaticamente, a Igreja ao condenar políticas
de saúde no campo dos direitos reprodutivos e direitos
sexuais passa ao largo de tudo isso, ditando as regras a partir
de um mundo abstrato. No entanto, no cotidiano da vida nas
comunidades as/os representantes da igreja têm que fazer
a mediação entre esse plano abstrato da alta
hierarquia e as necessidades oriundas das experiências
concretas das mulheres.
Como analisa Rosado (1991) a ação
da Igreja Católica desenvolvida nas periferias trouxe
uma nova integração social e política
para as mulheres. Através de pesquisa essa autora constata
que a Igreja teve um papel fundamental para mudança
de vida dessas mulheres. Analisando depoimentos das mulheres
participantes das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) Rosado
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