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| "A
própria instituição (Igreja Católica)
busca manter essa idéia de continuidade absoluta
de seu discurso sobre as práticas abortivas, como
o faz o atual Papa, na encíclica Evangelium Vitae.
Ora, não é de fato o que nos mostram os
estudos históricos". |
A Discussão
Atual na Igreja Católica Sobre o Aborto
M. José F. Rosado Nunes
É parte do senso comum, a idéia de que a preocupação
com a vida das pessoas seria decorrente da própria
"natureza humana". Proteger a vida de suas cidadãs
e de seus cidadãos seria, desde sempre e em todos os
lugares, parte das funções do Estado e o homicídio
seria pago com as penas mais duras. Em consequência,
o aborto teria sido sempre considerado pelas diversas sociedades
um crime horrendo. A idéia de direito à vida
e de sua proteção pela sociedade não
teria história; seria "natural". O mesmo
se pensa da Igreja Católica. Seu argumento de defesa
incondicional da vida, para justificar sua posição
contrária à legalização do aborto,
aparece como se tivesse sido sempre parte de seu pensamento,
de forma contínua e imutável, i.e., sem história.
A própria instituição busca manter essa
idéia de continuidade absoluta de seu discurso sobre
as práticas abortivas, como o faz o atual Papa, na
encíclica Evangelium Vitae. Ora, não
é de fato o que nos mostram os estudos históricos.
Nos primeiros séculos do Cristianismo, a preocupação
central - da Igreja, como do Estado - era com a constituição
do casamento monogâmico como regra para toda a sociedade.
No império romano, estabeleceram-se leis que desencorajavam
o concubinato. O primeiro concílio do Ocidente, realizado
no século IV, antes mesmo da oficialização
do Cristianismo por Constantino - o Concílio de Elvira
- estabelece penas religiosas severíssimas para as
transgressões à fidelidade conjugal. Tanto a
Igreja quanto o Estado impunham penas mais duras para os casos
de adultério do que para os de homicídio. Assim,
a punição do aborto, durante os seis primeiros
séculos do cristianismo, não era referida, em
primeiro lugar, ao feto cuja vida seria tirada, mas ao adultério
que o aborto revelava. Pode-se pois concluir que para o Cristianismo,
como para a lei romana, a afirmação do casamento
monogâmico como única união legítima,
era mais importante como fundamento social do que a proteção
da vida.
Em relação ao aborto, a discussão entre
os teólogos dava-se em torno do momento em que o feto
passaria a ser uma pessoa, porque somente a partir desse momento,
haveria crime e, portanto, pecado. Segundo grande parte dos
teólogos da época, o aborto provocado no início
da gravidez não constituiria pecado, já que
não atentaria contra a vida de uma pessoa. Durante
todo o período medieval, as discussões teológicas
em torno do momento da "hominização"
(ou da "pessoalização", como prefiro
chamar) continuaram. Prevalecia a teoria de Tomás de
Aquino - considerado um dos maiores teólogos do Cristianismo
- segundo o qual só haveria aborto pecaminoso quando
o feto estivesse totalmente formado. Essa compreensão
foi predominante até o século XIX, quando o
Papa Pio IX, em 1869, declara que o aborto é pecado
em qualquer situação e em qualquer momento que
se realize. Pela primeira vez, Papa e teólogos coincidem,
rechaçando a teoria da "hominização
retardada" para assumir a da "hominização
imediata", i.e., a tese de que desde o momento da
concepção existe uma pessoa humana e portanto,
atentar contra ela é homicídio. Até essa
data, essa questão havia sido controvertida na Igreja.
Note-se que, isso ocorre no mesmo período em que a
Igreja tem necessidade - por razões de política
interna e externa - de afirmar o poder papal, através
da proclamação do dogma da infalibilidade. É
também o momento em que o culto à Virgem Maria
acentua-se e a Igreja proclama a sua concepção
imaculada um dogma de fé - i.e., afirma que Maria foi
a única criatura humana a ter sido concebida sem pecado.
Está criado o modelo cristão de mulher.
No século XX, o dissenso interno voltou
a ocupar a cena. A discordância em torno das proposições
oficiais da Igreja Católica, quanto a temas como sexualidade
e contracepção, manifestaram-se de forma intensa
e pública, por ocasião da publicação
da encíclica Humanae Vitae , em 1968. Diversos episcopados,
como também teólogos católicos reagiram
aos ensinamentos do Papa Paulo VI. O documento emitido na
ocasião pelos Bispos belgas afirma: "Segundo
a doutrina tradicional, há que reconhecer que a última
regra prática é ditada pela consciência
devidamente esclarecida segundo o conjunto de critérios
que se expõem na Gaudium et Spes (n.50, &2; n.51,
&3), e que o juízo sobre a oportunidade de uma
nova transmissão da vida pertence, em última
instância, aos esposos, que devem decidir sobre a questão,
na presença de Deus."
Mais incisiva é a Carta Pastoral dos
Bispos nórdicos, em outubro de 1968: "Quando uma
pessoa, por razões sérias e bem ponderadas não
se convence pelos argumentos da encíclica (Humanae
Vitae), tem o direito de adotar uma opinião
distinta daquela apresentada em um documento não infalível.
Que ninguém pois, seja tido como mau católico
pela única razão de discordar... Ninguém,
nem mesmo a Igreja, pode dispensar do dever de seguir a própria
consciência." (grifo meu)
Há que lembrar também, que a
mesma Igreja Católica relativiza o princípio
da vida como valor supremo, quando exalta com a santificação
seus membros que "entregam a vida pela fé",
através do martírio. Além disso, o novo
Catecismo da Doutrina Católica justifica o sacrifício
da vida humana, aceitando o que chama de "guerra justa",
e, em casos de extrema gravidade, o recurso à pena
de morte, o que é reiterado na encíclica Evangelium
Vitae. Parece assim, que o caráter absoluto desse
princípio de defesa da vida aplica-se apenas ao caso
das práticas abortivas.
É preciso esclarecer que o que se pretende
aqui não é banalizar o argumento de defesa da
vida, ou apoiar a aprovação da Igreja à
guerra ou à pena de morte, mas discutir a incerência
de sua argumentação, quando se trata do aborto.
A vida humana é um precioso dom a ser defendido, mas
não se pode restringir essa proteção
à vida do feto e seguir culpando as mulheres que abortam.
Nas discussões atuais em torno do aborto,
no Brasil e em outros países da América Latina,
não é raro que opositores aos projetos que descriminalizam
o aborto invoquem princípios cristãos para afirmar
sua prática como um ato pecaminoso. Muitas vezes essa
posição é apresentada como se refletisse
o pensamento de todos os membros das Igrejas cristãs.
Raramente se faz alusão à diversidade interna
e às discussões existentes em torno das proposições
de uma moral sexual inspirada em princípios religiosos.
Isto é verdade, particularmente no caso da Igreja Católica.
No entanto, a defesa da validade moral de um ato abortivo
é feita, atualmente, não somente por mulheres,
teólogas e outras, mas também por homens, teólogos
leigos e mesmo membros da hierarquia. A preocupação
desses homens com a defesa da moralidade possível da
prática abortiva das mulheres parece caracterizar uma
situação de male involvement. Isso se dá
exatamente numa instituição religiosa cujo poder
interno é atribuído exclusivamente a homens
celibatários. Vejamos o que dizem alguns deles.(*)
Daniel Maguire, por exemplo, americano, formado
em Roma, professor de Teologia moral, tem uma surpreendente
afirmação: "A anticoncepção
é não somente lícita, como pode ser moralmente
obrigatória. Da mesma forma, a opção
por um aborto - uma opção que, ironicamente,
faz-se mais necessária quando se proíbe a anticoncepção
artificial - é, em muitas circunstâncias, uma
opção moral para as mulheres."
Um outro teólogo, latinoamericano,
refletindo sobre o julgamento moral da mulher cristã
que aborta, diz que esta encontra-se diante de um conflito
de valores ou de deveres: "preservar o valor da vida
de uma possível pessoa em gestação e
preservar também os valores que uma gravidez indesejada
levada a termo destruiria. Ao escolher o que considera ser
o mais importante, não incorre em nenhuma falta moral,
quer dizer, não incorre em pecado." Segundo
a moral tradicional e a atual, escreve ele, numa situação
limite, a pessoa pode escolher qual dos valores deve preservar.
Discutindo o respeito absoluto à vida,
como argumento definitivo contra a descriminalização
do aborto, um teólogo católico cita em artigo
recente, o professor Malherbe, segundo o qual, quando há
um conflito entre "a nossa felicidade e o dever de
respeitar a vida humana" , não se pode afirmar
de forma absoluta que a felicidade deva ser sacrificada.
A injustiça e imoralidade da penalização
do aborto são afirmadas por um moralista católico.
Após a consideração do aborto como um
dano irreparável , argumenta pela sua despenalização
civil e religiosa. Diz ele: " Em conclusão,
tendo em conta, como vimos, a dificuldade para afirmar que
o aborto é um ato culpável e criminoso porque
existem infinitas circunstâncias que diminuem a responsabilidade
ou eximem totalmente dela, seguir falando indiscriminadamente
do aborto como crime e de quem o leva a cabo como criminosas/os
é demagógico, injusto e imoral. E será
infinitamente mais imoral ainda, pedir que se castigue toda
pessoa que realize um aborto. (...) Uma ética que pretenda
ser para todos (e não somente para um grupo religioso)
estará geralmente obrigada a optar por suspender o
juízo diante do aborto, quer dizer, deixar a decisão
à autonomia da pessoa (e este é outro princípio
'sine qua non' da ética)".
A pesquisa que realizo, em torno do discurso
e do contra-discurso católico sobre o aborto, levantando
os corpos argumentativos relativos a cada um desses conjuntos
discursivos e identificando as mudanças ocorridas,
desde a Humanae Vitae (1968) até os nossos dias,
permitirá também colocar questões sobre
a maneira como homens da Igreja têm se envolvido com
essa questão, com proposições e argumentos
favoráveis às mulheres, pela defesa de sua autonomia
de decisão.
(*) Os nomes de alguns autores são
omitidos, por se tratar de textos de circulação
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